O Cisne Negro

Geoberto Espírito Santo
GES Consultoria

“A verdade pura e simples raramente é pura e nunca é simples.” (Oscar Wilde)
Em 1978, uma crise de energia elétrica no Nordeste por chuvas insuficientes para
recompor os reservatórios das hidrelétricas da região e pela inexistência de linhas de
transmissão para a transferência de outros subsistemas. Em 2001, um racionamento pela
falta de potência na hora da ponta para sustentar o consumo. Em 2021, a pior seca dos
últimos 91 anos, outra crise hídrica num mesmo intervalo de tempo ameaça o
suprimento de eletricidade. Se a crise hídrica é a única responsável por, ou se reduz
consumo ou corta carga, é outra história.
Nassim Nicholas Taleb em seu livro “A Lógica do Cisne Negro”, diz que um
Cisne Negro é um evento com um ponto fora da curva, imprevisível, produz um enorme
impacto e, apesar de seu status, a natureza humana nos faz engendrar explicações para
depois que ocorre, tornando-o explicável e previsível. Na descoberta da Austrália foi
visto um cisne negro, quando se pensava que todos os cisnes eram brancos, uma crença
calcada apenas por evidências empíricas. Ele também considera que um evento
altamente esperado e que não ocorre, é também um Cisne Negro, e pede uma nossa
observação por simetria porque a ocorrência de um evento altamente improvável é o
equivalente à não ocorrência de um altamente provável.
O sistema elétrico brasileiro é planejado para um risco de déficit de 5% ao ano,
ou seja, um risco de racionamento a cada 20 anos. Se fosse de 3%, certamente teríamos
mais obras, mais investimentos, tarifas mais altas. Definir o risco de déficit em 5%, 3%
ou 1%, isso sim, seria uma decisão do Parlamento. É óbvio que a competência
legislativa deve parar por aí, não pode querer colocar em lei qual deve ser o percentual
de hidrelétrica, eólica, solar, biomassa, gás natural, nuclear e outras fontes que podem
fazer parte da matriz elétrica brasileira.
Recentemente, o Congresso Nacional atuou como planejador do sistema elétrico
quando determinou que nos próximos dez anos sejam instalados 8 GW de térmicas à
gás natural e 2,5 GW de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), definindo as regiões e
os estados que vão receber esses empreendimentos, que poderão estar totalmente
desconexos com a demanda futura. O que se vê hoje é o Congresso querendo colocar
em lei regras atuais do mercado, que a cada dia mudam com uma velocidade
incompatível com a dinâmica interna do Parlamento, razão pela qual deve legislar
aprovando leis dizendo apenas o que não pode ser feito, cabendo a ANEEL a regulação
do mercado.
Na Guerra Fria, o motor da economia mundial era a corrida armamentista.
Depois da queda do Muro de Berlim passou a ser o aquecimento global e a produção de
energia elétrica através de fontes renováveis. O modelo desenhado pelo “capitalismo
verde” é baseado nas renováveis eólica e solar, no armazenamento de energia e no
“financiamento verde”, bastando observar quem são os detentores dessas tecnologias e
os acionistas das minas de nióbio, lítio e das baterias de fluxo. Como estratégia, eólica e
solar para substituir os combustíveis fósseis na geração e “matar as hidrelétricas com
reservatório e as nucleares” substituindo esse lastro com baterias para possibilitar o

fornecimento de energia elétrica no modelo 24 x 7. A gente se concentra muito no
normal, que quase sempre é irrelevante, mas nos dá a sensação de que a incerteza está
dominada.
Há mais de 10 anos se registra a progressiva redução do regime de chuvas, mas
se tivéssemos mais reservatórios, não só para produzir energia, como também para os
múltiplos usos da água, certamente agora os níveis de armazenamento seriam bem
maiores. Com a dificuldade de implementação de grandes acumuladores, a Agência
Internacional de Energia (AIE) vem agora reconhecer a importância das hidrelétricas e
os ambientalistas mais radicais já consideram a nuclear como a usina que menos emite
CO2.
Para o desenvolvimento das fontes eólica e solar, vieram umas meias-verdades,
divulgadas como “energia limpa”, uma coisa que não existe. Se formos considerar todo
o processo da conservação de energia, desde a obtenção da matéria-prima na natureza,
transporte, transformação industrial e descarte, vemos que é limpa só na operação. A
logística reversa daqui a pouco passa a ser um problema ambiental porque, no caso da
solar, os inversores estão chegando perto dos 10 anos de sua vida útil e depois de 25
anos vai ser o caso dos painéis. Na realidade é uma energia “menos suja”.
Outra meia verdade é a apresentação do preço baixo das renováveis nos leilões.
Esse preço é colocado abaixo do real para viabilizar a obra e a conexão, mas do projeto
é vendido entre 30% e 34% da sua garantia física para o mercado regulado e o restante
vai para um mercado livre de 36% do total, comercializado com preço mais alto,
utilizando os subsídios e o consumidor do mercado regulado arcando com o custo do
abastecimento das 16 horas restantes. Se não podemos confiar mais na “bateria hídrica”,
até mesmo pelas incertezas climáticas, nem contar com os acumuladores de energia
renovável, pela inviabilidade econômica do momento, temos que ter base térmica com
gás natural que é o combustível mais viável para a transição energética rumo a uma
economia de baixo carbono. Isso não foi feito e a aposta em São Pedro não deu certo.
A comparação de uma fonte intermitente com Itaipu, feita através da potência
instalada, também deixa a verdade pela metade, quando na realidade se deveria
comparar com a energia gerada, pois os fatores de capacidade têm uma diferença de
quase um terço.
A matriz elétrica brasileira já é composta por 83% de fontes renováveis. Nosso
problema de emissões de carbono está no setor de transportes e agora só se fala em
hidrogênio “verde”. Nossa desestruturação no GSF (Garantia Física do Sistema), PLD
(Preço de Liquidação de Diferenças), MRE (Mecanismo de Realocação de Energia),
CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) e nas tarifas, requer uma modernização
do modelo made in Brazil que leve em conta todas as tecnologias e atributos das fontes
disponíveis. Mas para ser realmente livre e competitivo, deve ter os subsídios
considerados necessários bancados pelo contribuinte e não pelo consumidor de energia
elétrica. (17/08/2021)

Comparando Crises

Geoberto Espírito Santo – GES Consultoria, Engenharia e Serviços

          Na Lei nº 14.182/2021, que dispõe sobre a desestatização da Eletrobras, o Congresso Nacional atuou como planejador do sistema elétricoquando determinou que nos próximos dez anos sejam instalados 8 GW de térmicas à gás natural e 2,5 GW de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), já definindo as regiões e os estados que vão receber esses empreendimentos, que poderão estar totalmente desconexos com a demanda futura.

O sistema elétrico brasileiro é planejado para um risco de déficit de 5% ao ano, ou seja, o risco de um racionamento a cada 20 anos.Se ele fosse planejado para um risco de 3%, certamente teríamos mais obras, mais investimentos, tarifas mais altas. Planejar com um risco de déficit de 5%, de 3% ou 1%, isso sim, seria uma decisão do Parlamento, e não técnica. É óbvio que a competência legislativa deve parar por aí, não pode querer colocar em lei qual deve ser o percentual de hidrelétrica, eólica, solar, biomassa, gás natural, nuclear e outras fontes energéticas que podem fazer parte da matriz elétrica brasileira. Tudo isso tem que ser definido tecnicamente, após estudos demográficos, cenários do desenvolvimento econômico, fontes e tecnologias disponíveis, implicações ambientais, geopolítica, compromissos internacionais, elasticidade energia/economia, eficiência energética projetada, preços e evolução cambial, dentre outras.Mas o que se vê hoje é o Congresso querendo colocar em lei regras atuais do mercado, que a cada dia mudam com maior velocidade e o que é ainda pior, introduzindo “jabutis” que não tem nada a ver com o assunto objetivo.

Regras do mercado devem ser definidas pelas Agências Reguladoras, órgãos de Estado, e não de Governo, mais ágeis que o Parlamento no processo regulatório e administradoras dos conflitos entre empresas estatais e privadas. Em 1978 tivemos uma crise de abastecimento de energia elétrica no Nordeste pela falta das chuvas que não conseguiram recompor os reservatórios da região e pela inexistência de linhas de transmissão para a transferência de energia de outros subsistemas. Em 2001 tivemos falta de potência elétrica na hora da ponta para sustentar o consumo e houve um racionamento. Agora, em 2021, uma crise hídrica que, outra vez, num mesmo intervalo de tempo, ameaça o suprimento de eletricidade.A clareza da existência do risco é diferente da certeza que não ocorrerá. Se a crise hídrica é a única responsável pela situação atual de, ou se reduz o consumo ou corta a carga, é outra história.

             Fazendo uma observação entre a crise de energia elétrica de 2001 e a de 2021, podemos fazer algumas comparações. Atualmente, nosso grande problema são os níveis dos reservatórios da Região Sudeste/Centro-Oeste, cerca de 70% do nosso armazenamento, estão com volumes muito baixos. Os reservatórios do Norte, Nordeste e Sul estão baixos, mas ainda numa situação de capacidade de geração relativamente suportáveis. Em 2001, ano do racionamento, o nível dos reservatórios do Sudeste estava em 23%. De setembro de 2020 a junho de 2021, a ENA (Energia Natural Afluente) ficou 33% menor que a média histórica de 91 anos de medição. Atualmente, se o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) conseguir cumprir o planejado, os reservatórios do Sudeste vão chegar em novembro em torno de 10% da sua capacidade de armazenamento e as hidrelétricas terão muita dificuldade em operar. Mesmo assim, não se acredita na decretação de um racionamento, haja vista ter um custo político muito grande, ainda mais no ano das eleições presidenciais. É bom lembrar que o Presidente Fernando Henrique Cardoso não conseguiu fazer de José Serra o seu sucessor e um dos motes da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi o racionamento de energia elétrica, apesar de ter sido muito bem administradosob o comando de Pedro Parente.

          A situação atual é bem diferente daquela de 2001, porque agora o sistema elétrico brasileiro é mais resiliente, tem uma estrutura mais robusta e as térmicas que foram contratadas de última hora naquele ano ainda estão no seu período de concessão, que vão até 2024-2025. Quando houve a redução do consumo em 2001, o percentual foi de 20% e, caso ocorra agora, deve variar entre 3% e 4%. Basta lembrar que naquela época ainda se usava lâmpadas incandescentes e que as de LED atuais não deixam grande margem para economizar nesse segmento do consumo se fossem substituídas. De 2001 até 2021, houve um aumento da capacidade de geração de 133% e um reforço nas linhas de transmissão, possibilitando mais transferência de energia entre os submercados. Na rota Sul – Sudeste, o aumento foi de 61%. Passou a existir a interligação entre o Norte e o Nordeste, com o Sudeste, que está atualmente com 14 vezes mais capacidade do que em 2001, inclusive para transportar a energia gerada por obras estruturantes como Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, utilizando o mecanismo do MRE (Movimento de Realocação de Energia).

          É bem verdade que houve uma diminuição da participação das usinas hidrelétricas e aumento de outras fontes, compondo uma matriz elétrica mais diversificada com a implantação de usinas eólicas, solares e de biomassa sazonal. As fontes eólica e solar são intermitentes, só funcionam 8 horas por dia, o suprimento de 24 horas precisa de uma “bateria” e a aposta em São Pedro não deu certo. A atual escassez de chuvas mostrou que foi um erro não terem sido implantadas novas térmicas, desta feita à gás natural, o combustível da transição energética que vivenciamos. Térmicas não poderiam ter sido desligadas, ou mesmo não terem sido acionadas quando disponíveis, operação que poderia resultar na recuperação dos reservatórios ante a baixa hidrologia. Entretanto, do ponto de vista operacional, é admissível essa decisão tomada,não só pela pressão ambiental como também na busca pelo menor custo de geração de energia, sendo essauma constante preocupação do setor elétrico brasileiro. A realidade é que, na situação atual temos que despachar toda a capacidade térmica possível, chegando nesta segunda semana de agosto a um Custo Marginal de Operação (CMO) de 3.009/MWh, indicando que os recursos térmicos estão próximos do limite e mesmo assim se registra que os reservatórios continuam baixando os seus níveis.

          Vale salientar que os reservatórios estando mais baixos, haverá menos potência hidráulica disponível e assim o país não poderá dizer que está imune a apagões e blecautes. Há possibilidade de possíveis falhas na transmissão, uma vez que, quando se busca maximizar a transferência de energia, são feitas flexibilizações e os ativos ficam mais susceptíveis a desligamentos por causa dessa operação sensível de transferência de energia.Portanto, essa crise hídrica traz um grande dilema para o governo; ou se aplica um tarifaço ou então vamos ter uma queda nos índices de crescimento econômico do país, e isso vai depender das decisões que serão tomadas de agora por diante para o combate à escassez de água nos reservatórios.Uma coisa é certa: o sistema elétrico chegará ao final de 2021 com uma grande dependência do próximo período chuvoso pois já se configura a repetição do La Niña para novembro/2021.

          O governo diz que não haverá racionamento e trabalha para que isso não aconteça, justamente num ano de eleições. A MP 1055 autorizou medidas para uma eventual venda de energia no horário da ponta e uma contratação emergencial de capacidade. Outras ações estão sendo gestadas, sendo as principais o Programa de Resposta de Demanda, para consumidores industriais, e um programa de economia de energia elétrica que deve ser desencadeado pelas distribuidoras para consumidores residenciais e outros segmentos de menor porte de carga.

CRISE HÍDRICA

Geoberto Espírito Santo

GES Consultoria, Engenharia e Serviços

             De setembro/2020 a junho/2021, a ENA (Energia Natural Afluente) foi de 66%, o pior volume de toda uma série histórica de 91 anos. Essa situação hídrica continua pressionando os reservatórios das hidrelétricas do SIN (Sistema Interligado Nacional) que poderão chegar em novembro com armazenamento inferior a 10%. Com o critério de uso múltiplo das águas, essa situação interfere no abastecimento humano, na geração de energia, na irrigação, no transporte fluvial, na água para a indústria e para o consumo animal. O processo tradicional de definição de prioridade para o uso da água é cuidadoso e participativo, mas é muito moroso, razão pela qual, em situações hidrológicas excepcionais, é necessário ter uma governança do executivo federal capaz de fazer escolhas difíceis e de forma rápida.

             Para o enfrentamento da crise hídrica, o governo publicou no DOU (Diário Oficial da União) do dia 28/06, a Medida Provisória nº 1055 que institui a Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (CREG). A CREG terá a responsabilidade de estabelecer condições emergenciais para a operação dos reservatórios das hidrelétricas, definindo seus limites de uso, armazenamento e vazão, que devem vir acompanhadas de eventuais medidas mitigadoras. A CREG terá plenos poderes para o estabelecimento das diretrizes de gerenciamento da crise, que terão caráter obrigatório até 31/12/2021.Será composta pelos ministros de Minas e Energia, da Economia, da Infraestrutura, da Agricultura, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Regional. Será presidida por Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, e a Secretaria-Executiva será exercida pelo MME (Ministério de Minas e Energia). Albuquerque poderá tomar decisões ad referendum do colegiado, portanto, sem consultar, mas terá que posteriormente submeter seus atos à apreciação dos demais integrantes da CREG na reunião seguinte. O MME disse que a CREG “preserva as competências dos órgãos e entidades responsáveis pela implementação das diretrizes”, e justifica a Câmara estabelecer prazos para que as ações sejam implantadas “em razão da celeridade necessária para a adoção de medidas emergenciais.”

             A CREG terá não apenas o objetivo de assegurar o abastecimento de energia elétrica até final de 2021, mas também visará reduzir os impactos da escassez hídrica para os demais usuários da água e terá as seguintes competências: a) estabelecer prazos para que os órgãos e entidades da administração pública federal, direta e indireta, Operador Nacional do Sistema Elétrico, Câmara de Comercialização de Energia Elétrica e geradores, atendam às medidas de acordo com suas competências e obrigações legais e contratuais; b) determinar o ressarcimento, por meio de Encargos de Serviços do Sistema (ESS) e pagos pelo consumidor, dos custos operacionais dos geradores com a implementação de medidas de monitoramento e mitigação dos impactos ambientais decorrentes das ações adotadas; c) requisitar e estabelecer prazos para receber informações e subsídios técnicos aos órgãos e entidades da administração federal direta e indireta, ao ONS, a CCEE e aos geradores; d) homologar deliberações do CMSE (Comitê de Monitoramento do Sistema Elétrico) que estejam relacionadas às medidas emergenciais para suprimento eletroenergético, dentre elas a contratação de reserva de capacidade; e) estabelecer a obrigatoriedade de cumprimento das decisões do CMSE pelos órgãos públicos e entidades do setor, além de concessionários e autorizados dos setores de energia elétrica e de petróleo, gás natural e biocombustíveis.

          O governo espera um compromisso voluntário dos grandes consumidores industriais de energia elétrica através do Programa Resposta de Demanda e vai implantar outro de racionalização para que as pressões sobre a demanda não aumentem no momento mais crítico da crise hídrica. A MP 1055teve a aprovação das associações que representam o setor de geração de energia elétrica e seusrepresentantes estão mobilizados aguardando que o governo os convoquepara colher sugestões, dar suporte para os momentos mais críticos e querem saber qual será a contrapartida do governo.Para 2022 o cenário do PIB é positivo, o que resulta num possível aumento da demanda por energia. Portanto, nesse ano, temos que trabalhar para que os reservatórios não venham a ser muito deplecionados até novembro, mês a partir do qual começa o período úmido, de chuvas, que vai até abril de 2022.

             Por não ter uma determinação específica de um programa de racionamento ou mesmo de redução de consumo, fica aberto um precedente de insegurança pelos amplos poderes que foram dados a CREG, que, ao final do dia pode tomar decisões de ações a serem implementadas que podem ampliar o custo da energia. Outro ponto que também não encontra unanimidade é que dificilmente teremos um racionamento, principalmente pelas implicações políticas que isso pode trazer num ano de eleições presidenciais, mas que terá como consequência uma subida no custo da energia. A confiabilidade energética ainda é boa, mas em relação à potência, é muito difícil se fazer um prognóstico pois vai depender da retomada da economia e de como vão funcionar os equipamentos de geração em condições extremas. Quais os efeitos do esvaziamento dos reservatórios na queda aproveitável? Qual a máxima vazão de operação para cada turbina? Qual a redução de eficiência das mesmas? São incertezas, mas impactam a potência e dependem da operação dos reservatórios, que, por sua vez, dependem de como eles são operados.

             A liderança da CREG pelo ministro de Minas e Energia mostra que o foco do governo é a geração de energia. Os membros dessa nova Câmara, sendo ministros de Estado, a tendência é que a decisão estará concentrada na esfera política. As decisões técnicas do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) são submissas a CREG, o que pode tirar a componente técnica das decisões, assim como o poder das agências reguladoras que deveriam atuar de forma imparcial em relação ao governo federal. Falta clareza de pontos no texto no reconhecimento do custo decorrente da geração térmica, que vai ser dado pelo ANEEL, projetado em R$ 13 bilhões até novembro. Não há critério algum que oriente esse reconhecimento e isso é um ponto de insegurança para o gerador hídrico. Na hora da recuperação dos reservatórios, isso poderá trazer dificuldades, o PLD (Preço de Liquidação de Diferenças) fica exposto, com reflexo em todos os rebatimentos que isso pode trazer ao setor elétrico. Existe, portanto, um espaço para uma potencial discussão jurídica no futuro.

             A MP 1055 ainda não tem relator, mas em 30 de junho já havia recebido 280 emendas de parlamentares, dentre elas os famosos “jabutis”, aquelas que apresentam assuntos que não estão relacionado com os objetivos da Medida Provisória. Dentre os “jabutis” podemos destacar:interromper a privatização da Eletrobras; proibição do processo de descotização das usinas da Eletrobras; cobertura previdenciária aos empregados da Eletrobras; estabelecimento de novas regras para a mini e a microgeração distribuída.

HIDROGÊNIO VERDE.

Geoberto Espírito Santo

O conceito de net zero está engatinhando, mas já impulsiona mudanças públicas. Estudo
realizado pela Energy and Climate Intelligence Unit (ECTU) em conjunto com a Oxford Net
Zero mostrou que 61% dos países, 9% das regiões e estados dos maiores países emissores e
13% das cidades com mais de 500 mil habitantes já definiram quando vão alcançar metas de
emissão zero. Até que ponto essas metas zero de emissões líquidas atendem aos critérios que
foram estabelecidos na campanha Race to Zero, da ONU (Organização das Nações Unidas) é
a questão, mas 20% dessas metas já atingem essa “linha de partida”. Especialistas estão
preocupados com a falta de transparência de como os países e as empresas vão usar as
compensações das emissões para atingir os seus objetivos e fazem um alerta para o risco de
greenwashing, que é o descasamento entre o discurso verde e as práticas. Um dos veículos
utilizados nas projeções de governos e empresas para chegarem à emissão zero de carbono
num horizonte definido é o hidrogênio. Esse gás é o elemento químico mais abundante no
universo, é três vezes mais poderoso que a gasolina e tem outra grande vantagem: é uma
fonte de energia limpa, pois no seu processo libera água (H 2 O) em forma de vapor e não
produz o dióxido de carbono (CO 2 ).
Há muitos anos existem tecnologias para a sua produção, mas é pouco utilizado por ser
muito perigoso e inflamável, razão pela qual seu transporte/armazenamento seguro é o
desafio. Na Terra só existe combinado com outros elementos como água, junto com o
oxigênio, e com o carbono para formar hidrocarbonetos, como o gás, carvão e petróleo. Para
separá-lo, existem vários processos de extração, mas requisita muita energia, razão pela qual
é caro: eletrólise, reforma e vapor de hidrocarbonetos, oxidação parcial de óleos pesados,
oxidação parcial do carvão, termoquímica, hidrólise a altas temperaturas e eletrólise
fotovoltaica. Anos atrás, começou a ser produzido com as chamadas fontes renováveis de
energia, utilizando um eletrolisador, que usa a corrente elétrica para dividir a água em
hidrogênio e oxigênio. Por isso está sendo chamado agora de hidrogênio verde, 100%
sustentável, mas muito mais caro que o hidrogênio tradicional.
O hidrogênio verde é de 2 a 3 vezes mais caro que o hidrogênio azul, produzido a
partir de combustíveis fósseis em combinação com a captura e armazenamento de carbono.
Esse custo é determinado pelo preço da eletricidade, investimento no eletrolisador e pelas
horas em que está em operação. Uma combinação de custos decrescentes das energias solar e
eólica, a economia de escala nos eletrolisadores e um melhor desempenho nas horas em que
esteja em funcionamento poderão fazer com que, até 2030, o hidrogênio verde se torne
competitivo em relação ao hidrogênio azul, segundo a Agência Internacional de Energia
Renovável (IRENA, sigla em inglês).
O gás hidrogênio pode ser utilizado de imediato ou estocado, quando o uso do
elemento ou composto químico equivale à parte de descarga do sistema de armazenamento.
Do ponto de vista do armazenamento, o gás hidrogênio é excelente, pois apresenta a maior
densidade de energia por unidade de volume. Seu grande problema é a inflamabilidade e a
sua baixa densidade torna o transporte e a estocagem caros e perigosos, ou seja, são grandes
barreiras para o seu uso. O gás hidrogênio só é liquefeito em temperaturas criogênicas
extremamente baixas, inferiores a – 240 °C, e assim, na temperatura ambiente estará sempre
na sua forma gasosa e, requerendo elevadas pressões de armazenamento.
O Brasil pode ser um beneficiário do preço da eletricidade renovável, pois tem uma
das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, principalmente a matriz elétrica,

podendo assim tornar-se uma potência não só na produção como na exportação do
combustível renovável. Em nosso país já existem estudos e iniciativas postas em andamento.
Com a utilização de R$ 42,28 milhões oriundos da Chamada Pública 21/2016 de P &
D da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), Furnas Centrais Elétricas iniciou
recentemente a produção de hidrogênio verde, combinando a água do reservatório da usina
de Itumbiara com o auxílio de uma usina solar fotovoltaica de 1 MWp que está com 800
kWp em terra e 200 kWp flutuante.
A Fortescue Future Industries e a Porto de Açu Operações assinaram um Memorando
de Entendimentos para o desenvolvimento de projetos industriais baseados no hidrogênio
verde. A Fortescue é uma subsidiária da mineradora australiana de mesmo nome e a Porto de
Açu, é controlada pela Prumo. Seria instalada uma planta de 300 MW de hidrogênio verde no
Porto de Açu, Rio de Janeiro, com um potencial de produção de 250 mil toneladas de amônia
verde por ano. A produção usará projetos de energia solar que ainda vão ser desenvolvidos
no local e a energia eólica offshore na costa do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Esse
combustível irá impulsionar a industrialização sustentável do Porto, que inclui a produção de
aço verde, fertilizantes, produtos químicos, combustíveis e outros produtos industrias
manufaturados.
A Thyssenkrupp publicou seu Plano Nacional de Hidrogênio, citando as
oportunidades da empresa no Brasil e na Alemanha. Vai investir 2 bilhões de euros em
parcerias com países que queiram desenvolver o H2 verde para que a Alemanha possa
importar o insumo e fazer a substituição na sua matriz energética, objetivando a
descarbonização da indústria alemã. No Brasil, a pretensão é importar plantas de energia
verde que alimentam eletrolisadores que transformem a energia em vários produtos, como
por exemplo o metanol e a amônia.
A Eletrobras, o CEPEL (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica) e a Siemens Energy,
firmaram um acordo para chegar ao domínio do ciclo tecnológico completo do hidrogênio
verde. O CEPEL vai estudar a produção de hidrogênio verde por meio de eletrólise e a
Siemens Energy está trabalhando na criação de eletrolisadores baseados na tecnologia PEM
(Membrana de Troca de Prótons).
O Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, identificou uma área propícia
para a produção de hidrogênio com uma capacidade de 5 GW e instalação de um hub de
hidrogênio verde. Estudos preliminares citam que é possível produzir aproximadamente 900
mil toneladas de H2V por ano. A unidade de eletrólise ficará no Porto de Pecém e será
aproveitada a geração solar e eólica onshore e offshore. O Governo do Ceará pretende
transformar a região em um hub de exportação de combustível.
Alagoas é o único estado do Nordeste que não tem usina eólica ou solar fornecendo
eletricidade para o SIN (Sistema Interligado Nacional), nem para o mercado regulado, nem
para o mercado livre. Será que não temos nem vento, nem radiação solar? O que está
faltando? Planejamento? Incentivos governamentais? Incentivos fiscais? Infraestrutura?
Logística? Investidores? Marco Regulatório? Exageradas exigências para o licenciamento
ambiental? A nova fronteira de desenvolvimento tecnológico da energia são as eólicas
offshore, quando fabricantes mundiais de aerogeradores estão em parceria com os maiores
produtores de petróleo e gás para gerar energia de fonte renovável no mar. Será que temos
alguma chance de ter um hub de hidrogênio verde?

Geoberto Espírito Santo
GES Consultoria, Engenharia e

A ilusão digital

Geoberto Espírito Santo

GES Consultoria, Engenharia e Serviços

“A tecnologia digital é a arte de criar necessidades desnecessárias
que se tornam absolutamente imprescindíveis.” (Juliano Bastide)

Mesmo antes da pandemia, a transformação digital já tinha virado uma mantra.
Agora, parece que a digitalização é quem vai salvar os negócios. Antes da pandemia, algo
como 67% das organizações brasileiras não permitiam trabalho remoto e parece que a
sobrevivência fica sinalizando que todas devem implantar esse processo. Esse índice é um
sinal que as empresas brasileiras estão despreparadas para a condução do processo digital.
Sem nenhum planejamento, o olhar apenas nos seus pontos positivos certamente vai leva-
las a cair nas armadilhas dos problemas que podem surgir no caminho e, fatalmente,
perderão tempo, dinheiro e talentos. Vocês já devem ter visto alguma entrevista na TV de
executivos do INSS. Como é fácil resolver problemas pelos meios digitais. Vão lá no site e
sigam os passos que eles dizem para fazer e vejam se conseguem algum sucesso.
Precisamos ter muito cuidado porque a solução tecnológica pode nos trazer uma ilusão
muito perigosa de que, sozinha, a tecnologia resolverá todos os nossos problemas, como
vemos em vários discursos vazios que pregam a transformação digital.
Acreditar cegamente nos dados é deixar de lado a individualidade, a sensibilidade e
a criatividade do ser humano. De certa forma, já no século 19, durante a 1ª Revolução
Industrial, o movimento positivista dizia que apenas pela racionalidade se poderia acessar
a verdade. Portanto, essa crença de colocarem agora a tecnologia como a salvação da
humanidade, vem de tempos idos. Quando usamos os smartphones e acessamos
aplicativos deixamos rastros digitais em que os algoritmos passam a memorizar nossos
dados pessoais, endereços, contatos, compras, gostos, hábitos e indicadores de saúde.
Numa visão futurista bem ampla, vivemos num mundo em que os biólogos estão
procurando decifrar de que maneira funciona nosso corpo, o cérebro principalmente, e os
cientistas da Inteligência Artificial nos passando um inigualável poder no processamento
de dados. Certamente que no encontro dessas duas vertentes vão poder compreender
nossos sentimentos e assim monitorá-los melhor que cada um de nós.
Pandemia do Covid à parte, o dia a dia segue na projeção de um caminho em que
vamos ter um ótimo serviço de saúde e remédios super adequados, mas ao mesmo tempo
estar sempre doentes porque haverá alguma coisa desconforme em nosso corpo que será
detectado pelos algoritmos. E aí? Algum seguro-saúde nos vai aceitar, se vamos estar
sempre doentes? Será que nossa empresa nos vai demitir porque não quer correr o risco de
ter um empregado que vai trabalhar doente? Essas e outras perguntas de igual teor vão
passar a ser feitas e nesse momento não temos respostas que, no tempo, novas soluções já
deverão ter sido gestadas.
A igualdade é um dos bens universais em nome da qual, tanto os governos
democráticos como os ditatoriais, investem em saúde e educação porque precisam de
trabalhadores saudáveis para atuar em suas linhas de produção e de soldados leais para
defenderam a sua pátria, os seus territórios. Temos hoje a globalização que busca uma
unificação econômica mundial, mas que ao mesmo tempo também pode se dividir em
castas biológicas. Atualmente, 1% da população mais rica do planeta Terra detém metade
da riqueza mundial e os 100 indivíduos mais ricos possuem mais dinheiro do que 4 bilhões
de pessoas mais pobres. No Brasil, a tecnologia digital tem sido uma forma de aumentar

essa desigualdade. Em torno de 70% dos alunos da rede pública não têm acesso aos meios
digitais, ou por questões financeiras, ou porque essas escolas não possuem acesso à
internet, e, quando possuem, é um serviço de baixa qualidade. Nessa pandemia, uma
solução foram as aulas não-presenciais, mas quando fomos observar, em nenhuma
Unidade da Federação foi feita a extensão desses serviços para a rede pública escolar. Esse
é um cenário em que a bioengenharia e inteligência artificial vão retirar da maioria dos
humanos não só o valor econômico, mas também a força política das massas, quando
poderemos ser governados pela boa vontade de uma pequena elite, sejam eles presidentes
ou ditadores.
Os avanços da tecnologia da informação são palpáveis e a capacidade de lidar com
dados é espantosa. Pela internet as pessoas fazem negócios, conversam com amigos,
compartilham fotos, buscam a outra cara metade, namoram, implantam fatos sem
compromisso com a verdade e distorcem a informação correta para atingir objetivos
inconfessáveis. Não resta a menor dúvida que as formas de nos comunicar são incontáveis,
mas a maioria não consegue transformar informações em ações efetivamente produtivas.
Precisamos entender que os dados chegam até um certo ponto e, à partir daí, só o
pensamento crítico humano pode manuseá-los de maneira criteriosa. Um exemplo disso é
o perfil Twitter para Tay, criado em 2016 pela Microsoft. O somatório das conversas com
os usuários iria criando seu próprio conteúdo. Começou como todos os seres humanos,
muito bonzinhos. Mas em 24 horas, teve que ser deletado porque a Inteligência Artificial
havia corrompido o perfil de Tay que a tornou racista, homofóbica e defensora do
nazismo. Cada dia aparece uma inovação, e isso é realmente uma revolução, que aos
poucos vai minando a nossa privacidade e nos deixando escravos do celular. Sem medo de
errar, podemos afirmar que nem toda inovação se traduz em aumento de produtividade.
Existe uma métrica chamada Produtividade Total dos Fatores (PTF), cujo objetivo é
isolar o peso da inovação no crescimento da economia e nela podemos verificar que várias
atividades têm impactos econômicos diretos e outras não. Quando vamos observar com
lupa, vemos que o reflexo na vida dos consumidores é muito pequeno e,
consequentemente, de pouca relevância na produtividade geral da economia. Colocar
dados nas nuvens significa melhorar a produtividade das empresas porque transfere seus
custos para os consumidores e um robô utiliza nosso tempo para fazer propaganda de seus
serviços, que, na grande maioria deles, nem sempre estamos interessados.
Para fazer um pagamento nesses aplicativos, é uma beleza: rápido e eficiente.
Tentem cancelar um cartão de crédito ou uma linha telefônica: você liga e um robô
automaticamente vai pedindo seus dados, armazenando e mostrando tudo que os bancos,
ou as empresas de serviços, oferecem, menos aquela opção de cancelamento. Depois de
uns 25 minutos ou mais, ainda tem uma musiquinha chata para você ouvir até que
consegue falar com outro ser humano. Esse vai identificar o que você realmente deseja,
oferecer um monte de vantagens para não cancelar o serviço e com a sua negação diz que
vai passar para a pessoa certa no tratamento do assunto. A ligação cai e você tem que
repetir tudo.
Certamente que esse procedimento abusivo de quem oferece o serviço merece uma
legislação tipo “freio de arrumação” porque os consumidores perdem muito tempo,
deixam de produzir em outras situações e, portanto, ficam posicionados em posturas
menos relevantes quando se fala na ampliação da produtividade geral da economia.

Geoberto Espírito Santo
GES Consultoria, Engenharia e Serviços