Ir para conteúdo

A ilusão digital

Geoberto Espírito Santo

GES Consultoria, Engenharia e Serviços

“A tecnologia digital é a arte de criar necessidades desnecessárias
que se tornam absolutamente imprescindíveis.” (Juliano Bastide)

Mesmo antes da pandemia, a transformação digital já tinha virado uma mantra.
Agora, parece que a digitalização é quem vai salvar os negócios. Antes da pandemia, algo
como 67% das organizações brasileiras não permitiam trabalho remoto e parece que a
sobrevivência fica sinalizando que todas devem implantar esse processo. Esse índice é um
sinal que as empresas brasileiras estão despreparadas para a condução do processo digital.
Sem nenhum planejamento, o olhar apenas nos seus pontos positivos certamente vai leva-
las a cair nas armadilhas dos problemas que podem surgir no caminho e, fatalmente,
perderão tempo, dinheiro e talentos. Vocês já devem ter visto alguma entrevista na TV de
executivos do INSS. Como é fácil resolver problemas pelos meios digitais. Vão lá no site e
sigam os passos que eles dizem para fazer e vejam se conseguem algum sucesso.
Precisamos ter muito cuidado porque a solução tecnológica pode nos trazer uma ilusão
muito perigosa de que, sozinha, a tecnologia resolverá todos os nossos problemas, como
vemos em vários discursos vazios que pregam a transformação digital.
Acreditar cegamente nos dados é deixar de lado a individualidade, a sensibilidade e
a criatividade do ser humano. De certa forma, já no século 19, durante a 1ª Revolução
Industrial, o movimento positivista dizia que apenas pela racionalidade se poderia acessar
a verdade. Portanto, essa crença de colocarem agora a tecnologia como a salvação da
humanidade, vem de tempos idos. Quando usamos os smartphones e acessamos
aplicativos deixamos rastros digitais em que os algoritmos passam a memorizar nossos
dados pessoais, endereços, contatos, compras, gostos, hábitos e indicadores de saúde.
Numa visão futurista bem ampla, vivemos num mundo em que os biólogos estão
procurando decifrar de que maneira funciona nosso corpo, o cérebro principalmente, e os
cientistas da Inteligência Artificial nos passando um inigualável poder no processamento
de dados. Certamente que no encontro dessas duas vertentes vão poder compreender
nossos sentimentos e assim monitorá-los melhor que cada um de nós.
Pandemia do Covid à parte, o dia a dia segue na projeção de um caminho em que
vamos ter um ótimo serviço de saúde e remédios super adequados, mas ao mesmo tempo
estar sempre doentes porque haverá alguma coisa desconforme em nosso corpo que será
detectado pelos algoritmos. E aí? Algum seguro-saúde nos vai aceitar, se vamos estar
sempre doentes? Será que nossa empresa nos vai demitir porque não quer correr o risco de
ter um empregado que vai trabalhar doente? Essas e outras perguntas de igual teor vão
passar a ser feitas e nesse momento não temos respostas que, no tempo, novas soluções já
deverão ter sido gestadas.
A igualdade é um dos bens universais em nome da qual, tanto os governos
democráticos como os ditatoriais, investem em saúde e educação porque precisam de
trabalhadores saudáveis para atuar em suas linhas de produção e de soldados leais para
defenderam a sua pátria, os seus territórios. Temos hoje a globalização que busca uma
unificação econômica mundial, mas que ao mesmo tempo também pode se dividir em
castas biológicas. Atualmente, 1% da população mais rica do planeta Terra detém metade
da riqueza mundial e os 100 indivíduos mais ricos possuem mais dinheiro do que 4 bilhões
de pessoas mais pobres. No Brasil, a tecnologia digital tem sido uma forma de aumentar

essa desigualdade. Em torno de 70% dos alunos da rede pública não têm acesso aos meios
digitais, ou por questões financeiras, ou porque essas escolas não possuem acesso à
internet, e, quando possuem, é um serviço de baixa qualidade. Nessa pandemia, uma
solução foram as aulas não-presenciais, mas quando fomos observar, em nenhuma
Unidade da Federação foi feita a extensão desses serviços para a rede pública escolar. Esse
é um cenário em que a bioengenharia e inteligência artificial vão retirar da maioria dos
humanos não só o valor econômico, mas também a força política das massas, quando
poderemos ser governados pela boa vontade de uma pequena elite, sejam eles presidentes
ou ditadores.
Os avanços da tecnologia da informação são palpáveis e a capacidade de lidar com
dados é espantosa. Pela internet as pessoas fazem negócios, conversam com amigos,
compartilham fotos, buscam a outra cara metade, namoram, implantam fatos sem
compromisso com a verdade e distorcem a informação correta para atingir objetivos
inconfessáveis. Não resta a menor dúvida que as formas de nos comunicar são incontáveis,
mas a maioria não consegue transformar informações em ações efetivamente produtivas.
Precisamos entender que os dados chegam até um certo ponto e, à partir daí, só o
pensamento crítico humano pode manuseá-los de maneira criteriosa. Um exemplo disso é
o perfil Twitter para Tay, criado em 2016 pela Microsoft. O somatório das conversas com
os usuários iria criando seu próprio conteúdo. Começou como todos os seres humanos,
muito bonzinhos. Mas em 24 horas, teve que ser deletado porque a Inteligência Artificial
havia corrompido o perfil de Tay que a tornou racista, homofóbica e defensora do
nazismo. Cada dia aparece uma inovação, e isso é realmente uma revolução, que aos
poucos vai minando a nossa privacidade e nos deixando escravos do celular. Sem medo de
errar, podemos afirmar que nem toda inovação se traduz em aumento de produtividade.
Existe uma métrica chamada Produtividade Total dos Fatores (PTF), cujo objetivo é
isolar o peso da inovação no crescimento da economia e nela podemos verificar que várias
atividades têm impactos econômicos diretos e outras não. Quando vamos observar com
lupa, vemos que o reflexo na vida dos consumidores é muito pequeno e,
consequentemente, de pouca relevância na produtividade geral da economia. Colocar
dados nas nuvens significa melhorar a produtividade das empresas porque transfere seus
custos para os consumidores e um robô utiliza nosso tempo para fazer propaganda de seus
serviços, que, na grande maioria deles, nem sempre estamos interessados.
Para fazer um pagamento nesses aplicativos, é uma beleza: rápido e eficiente.
Tentem cancelar um cartão de crédito ou uma linha telefônica: você liga e um robô
automaticamente vai pedindo seus dados, armazenando e mostrando tudo que os bancos,
ou as empresas de serviços, oferecem, menos aquela opção de cancelamento. Depois de
uns 25 minutos ou mais, ainda tem uma musiquinha chata para você ouvir até que
consegue falar com outro ser humano. Esse vai identificar o que você realmente deseja,
oferecer um monte de vantagens para não cancelar o serviço e com a sua negação diz que
vai passar para a pessoa certa no tratamento do assunto. A ligação cai e você tem que
repetir tudo.
Certamente que esse procedimento abusivo de quem oferece o serviço merece uma
legislação tipo “freio de arrumação” porque os consumidores perdem muito tempo,
deixam de produzir em outras situações e, portanto, ficam posicionados em posturas
menos relevantes quando se fala na ampliação da produtividade geral da economia.

Geoberto Espírito Santo
GES Consultoria, Engenharia e Serviços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s