Geoberto Espírito Santo

Atualmente, a hidrelétrica de Itaipu, com 14.000 MW (megawatts) é a maior do
Brasil e a terceira maior do mundo, superada pela usina de Três Gargantas (22.500 MW)
e pela usina de Baihetan (16.000 MW), ambas na China. No trecho inferior do Rio
Yarlung Tsangpo, no sudeste do Tibete, os chineses começaram a construir a que será a
maior do mundo. Nesse rio existe um desnível extremo e o curso d´água despenca cerca
de 2.000 metros em um desfiladeiro de aproximadamente 50 km e a China deu início a
construção de uma hidrelétrica que deverá formar uma cadeia de 5 barragens em
cascata na região de Nyingchi e terá a capacidade de 70 GW. Assim, vai consolidar a
China como a protagonista global em mega infraestruturas de energia que, inclusive,
poderá redesenhar o mapa estratégico e diplomático da Ásia.
Esse é um cenário que cria um dos maiores potenciais hidrelétricos do mundo,
razão pela qual o interesse da China na construção dessa usina. Seu custo estimado é de
1,2 bilhão de yuans (cerca de US$ 167 bilhões ou R$ 933 bilhões) e para o
desenvolvimento desse megaprojeto foi criada a China Yajiang Group, com o objetivo
específico de tirar a usina do papel, coordenar e explorar esse enorme potencial de
geração de energia que existe nesse rio. A meta chinesa é transformar esse trecho do
Rio Yarlung Tsangpo em um polo de geração que poderá alimentar, não só a região
autônoma do Tibete, como fornecer energia aos centros industrias do leste chinês,
fazendo assim a integração dessa produção à rede nacional de transmissão.
Estrategicamente, esse projeto se enquadra perfeitamente na política chinesa de
ampliar a participação de energia renovável em sua matriz energética, reduzir o uso de
combustíveis fósseis e sustentar seus planos de reativação econômica através de
grandes obras de infraestrutura. Ou seja, a construção da maior hidrelétrica do planeta
no Tibete pretende ser um pilar da transição energética e da segurança no suprimento
de energia elétrica na China. Com uma capacidade instalada de 70 GW terá uma
produção anual de cerca de 300 bilhões de kWh com energia de base e assim vai reduzir
a demanda por térmicas a carvão e servir de apoio ao crescimento industrial. Um
investimento de US$ 167 bilhões será um grande gerador de empregos e vai promover
o desenvolvimento da infraestrutura e o fortalecimento da região do Tibete, que não
está integrada com os grandes polos chineses. Do ponto de vista energético, essa usina
reforça o peso da China como potência mundial de energia renovável e, pela sua
magnitude, ajuda a projetar Pequim em se posicionar na liderança de projetos de
“energia limpa”.
Mas esse local no Tibete é reconhecido pelos ecologistas como uma área de alta
sensibilidade ambiental e de grande biodiversidade. Os especialistas apontam os
seguintes riscos: a) perda de habitats de espécies endêmicas e ameaçadas, por causa do
alagamento de áreas naturais e fragmentação de ambientes; b) alteração drástica do
fluxo natural do rio, o que vai afetar a fauna aquática e os processos ecológicos ao longo
de dezenas de quilômetros; c) poderão haver mudanças microclimáticas e impactos
acumulativos sobre florestas, solos e reservas naturais da região. ‘
Em síntese, possui ecossistemas de altitude e espécies endêmicas já adaptadas a
condições muito específicas de fluxo, temperatura e qualidade da água, ou seja, eles
dizem que alterar o curso do Rio Yarlung Tsangpo para viabilizar a construção da maior
hidrelétrica do mundo poderá provocar impactos irreversíveis. Embora o discurso oficial
seja a busca de “energia limpa”, a escala desse empreendimento exige planos robustos
de mitigação ambiental que ainda não foram nem detalhados, nem divulgados na
mesma proporção que foi feita a da construção da usina.
Uma obra desse porte, a ser construída numa região montanhosa e remota do
Tibete, requer desafios logísticos de grande porte. A construção de barragens em
cascata vai precisar de soluções sofisticadas de engenharia para poder vencer o declive
do terreno, o volume de água e a estabilidade das estruturas. Transporte de
equipamentos pesados, insumos e pessoal requer a abertura e adaptação de estradas,
pontes, túneis e apoio de base em áreas de difícil acesso e clima rigoroso. Em paralelo
com essas obras civis será necessário a construção de linhas de transmissão para
transportar essa potência de 70 GW até os centros consumidores, atravessando longas
distâncias. Tudo isso requer um planejamento muito detalhado em todas essas etapas
para que o cronograma de execução da obra seja cumprido sem atrasos, custos
adicionais e riscos operacionais.
Esse projeto tem gerado críticas ambientais e tensões com a Índia, haja vista que
esse Rio Yarlung Tsangpo atravessa uma área sensível de disputa territorial entre os dois
países, muito especialmente na região de Arunachal Pradesh. A Índia está preocupada
porque qualquer alteração significativa no fluxo do rio poderá influir no abastecimento
de água para o território indiano, o que certamente trará reflexos negativos na
agricultura, no consumo humano e também na sua geração de energia elétrica.
A China está ciente desses problemas, mas até o presente momento não divulgou
detalhes técnicos das gestões que irá promover para os cenários de cheia, seca ou
operação máxima da usina. Nova Delhi também está preocupada com essa falta de
transparência de Pequim, o que coloca esse projeto no centro do tabuleiro diplomático,
que por sinal já está bastante intenso por disputas de fronteira e desconfiança mútua.
Para a Índia, a construção dessa maior hidrelétrica do planeta no Tibete vai dominar um
trecho crucial do Rio Yarlung Tsangpo e assim fará a China ter mais capacidade de
influência sobre os recursos hídricos, que são considerados estratégicos para a
segurança nacional indiana.
Essa obra é mais uma que serve para a gente desconstruir o mito de “energia
limpa”. Não existe energia limpa, seja ela hidrelétrica, eólica ou solar, se nessa avaliação
não olharmos somente o momento da geração. É claro que todas as formas de energia
podem ser aproveitadas para o desenvolvimento da sociedade, que não vive sem ela,
mas precisa ficar sabendo que nenhuma delas está isenta de produzir impactos
negativos no meio ambiente natural, razão pela qual é preciso um planejamento muito
bem feito para que seu desenvolvimento cause os menores impactos possíveis no meio
em que vivemos.
Geoberto Espírito Santo
Personal Energy da GES Consultoria, Engenharia e Serviços






