Categoria: POESIAS

PREITO ANTIGO

Sempre tive por ela um imenso carinho.

Com ela eu conversava absolutamente sozinho,

Apenas eu falava.

Ela ouvia e registrava tudo o que eu dizia

Palavra por palavra e ainda que heresia,

Somente me escutava.

As descidas e subidas do meu temperamento

Eu exorcizava nela, a qualquer momento,

Sem um pio de reclamação.

Fosse padre, e, sem dúvida, seria um confessor

Que absorvia tudo com profundo amor

E me dava a absolvição.

Por toda uma vida ela aguentou a minha extravasão.

A minha ânsia de criar, de ser uma exceção.

E resistiu sem muita dor.

Hoje. largada a um canto, simplesmente abandonada,

Minha máquina de escrever foi traída e ultrajada

Pelo meu computador.

* Poesia escrita em fevereiro de 1999

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PÉS NO CHÃO

A vida tem sido um sonho diferente e bom

Que, na verdade, de quando em vez, muda de tom.

Cai-se no abismo indesejado do pesadelo,

Um irritante e consequente selo

Que a vida cisma em editar.

Incoerente seria ela se não tivesse idas e vindas

Num passear eterno de estradas infindas.

Seria tola, sem graça, impertinente.

Um desfilar igual de toda a gente,

Um monótono e cansativo passear.

Imagine-se marcada ao começo da existência,

Dias e noites no mesmo embalar, sem consequência.

Sentir-nos-íamos no Universo, um ponto

Sem ao menos encontrarmos contraponto

Que nos fizessem aguerridos a lutar.

Não. Nem de longe pensem que o poema é masoquismo.

Se a vida fosse reta, isto sim, seria um casuísmo.

Mas que sabor teriam nossas estórias

Se não pudéssemos contar derrotas e vitórias

E com os pés no chão esboçar sorrisos e também chorar?

* Poesia escrita em 2007