Resiliência e transição no setor elétrico.

Geoberto Espírito Santo

Engenheiro e Professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas – UFAL

Com um insistente déficit fiscal e a gestão politicamente temerária das estatais, foi inevitável a volta da demonizada palavra privatização na agenda econômica. Falar nisso era tabu, considerado até um crime de lesa-pátria. Os estatizantes são contrários à privatização e, à favor, os defensores do mercado. Mas cabe às lideranças sindicais, empresariais, acadêmicas e políticas informarem à sociedade a situação de suas estatais com honestidade intelectual e política.  É preciso colocar luz nesse debate, mas estão colocando sombras, distorcendo a real projeção da luz só para fazer barulho, tirar vantagens políticas e/ou pessoaisapenas com a visão eleitoreira do quilovoto.

Os argumentos contrários à privatização das distribuidoras federalizadasbeiram o catastrofismo e não passam por um debate sério e racional. Vender uma empresa dessa por R$ 50 mil seria realmente um absurdo, se não tivesse um patrimônio líquido negativo, prejuízos acumulados e que fazer vultosos investimentos que deixaram de ser realizados. Ecoam vozes que vão privatizar a água, o serviço vai piorar, a tarifa vai aumentar, vai ter apagão,vão haver demissões e energia é um recurso estratégico, não é mercadoria.

Na realidade, quem opera os reservatórios é o ONS e o serviço das federalizadas é tão ruim que não conseguiram atingir as metas da ANEEL. As regras para a fixação das tarifas são iguais para empresas públicas e privadas e se houver apagões são pelas mesmas razões dos que outrora já ocorreram. No Brasil, 69% da geração de eletricidade já é feita por empresas privadas. A Eletrobras tem 46% da quilometragem das linhas de transmissão e das 63 distribuidoras, 57 são privadas. Energia é um recurso estratégico sim, mas as empresas não, haja vista os vários modelos corporativos existentes entre o capital público e o privado,função de fatores que vão muito além da ideologia e da defesa de privilégios. Se a energia elétrica não é mercadoria, por que cobra-se ICMS sobre ela?

As federalizadas, em 20 anos, deram um prejuízo à holding de R$ 23 bilhões. Mas o ponto central não é esse, é que certamente haverá demissões de empregados pois o salário médio das 6 distribuidoras da Eletrobras (AC, AL, AM, PI, RO e RR) é de R$ 11.763,48 enquanto que o da Neoenergia (BA, PE, RN) é de R$ 4.314,32. Mas esses direitos adquiridos são garantidos pela legislação trabalhista e muito pior seria a liquidação das mesmas, com mais R$ 16 bilhões que sairiam dos cofres da Eletrobras.As empresas de capital aberto do setor elétrico, desde 2011, perderam R$ 103 bilhões em valor, sendo que 89% coube a Eletrobras. Nela, a “privatização” não tem venda de ativos, é uma emissão de ações para diluir a participação da União no quadro societário, na realidade uma estratégia para profissionalizar a governança corporativa.

Mercado livre, fontes renováveis, matriz diversificada, geração distribuída, já projetam a obsolescência do modelo centralizado de geração, transmissão e distribuição. Fomos consumidores, usuários, clientes e agora somos “prosumidores”. Estão no para-brisa a tarifa horária, comercializador varejista, resposta da demanda, bioenergia, carros elétricos, armazenamento, eficiência energética, portabilidade elétrica, mini grids, redes inteligentes em cidades inteligentes. A Energia 4.0 e a Engenharia 5.0 estão na janela, batendo à nossa porta e o debate é esse: que tipo de empresa e governança corporativa podem assegurar qualidade/preço ao cidadão energético livre para escolher. (21/09/2018)

 

A revolução 4.0

A REVOLUÇÃO 4.0

Por Geoberto Espírito Santo

Engº, Prof. aposentado da UFAL e membro da Associação Alagoana de Imprensa – AAI

Na História, dizemos que houve uma revolução quando novas tecnologias e novas formas de ver o mundo provocaram, de forma abrupta e radical, mudanças profundas nos sistemas econômicos e nas estruturas sociais. Com foco agora na indústria, podemos dizer que tivemos três grandes revoluções industriais e já entramos na quarta.

Há cerca de 10.000 anos,antes das revoluções industriais, registramos uma revolução agrícola quando da transição da busca por alimentos para a agricultura, graças à domesticação dos animais. Essa combinação da força dos animais com a dos seres humanos transformou a produção, o transporte e a comunicação e aos poucos estimulou o crescimento da população e o aparecimento dos assentamentos que o processo de urbanização fez aparecer as cidades. Vieram em seguida três revoluções industriais, tendo como marca registrada a transferência da força muscular para a energia mecânica. A quarta, que bate à nossa parte, e em alguns países já entrou em casa, o aumento da produção humana vem por intermédio da cognição como fator de aumento da potência.

A primeira revolução industrial (1760 – 1850) surgiu pela invenção da máquina à vapor, a construção das ferrovias, o telégrafo e daí a produção mecânica, a siderurgia e a metalurgia. Uma das lições dessa época é que um fator determinante do progresso é função da extensão com que a inovação tecnológica é adotada pela sociedade. Quanto ao tempo, o tear mecanizado levou quase 120 anos para se espalhar pela Europa.

A segunda revolução industrial (1850 – 1945) foi caracterizada pela produção em massa, com o advento da eletricidade, do motor de combustão interna, do telefone e da linha de montagem. Ainda não plenamente vivenciada, pois 1,3 bilhão de pessoas, cerca de 17% da população mundial, não têm acesso à eletricidade, já nos deparamos com novas tecnologias, com a digitalização, com a próxima revolução.

A terceira revolução industrial, também chamada de “revolução do computador”, começou por volta de 1960 com o aparecimento dos mainframes. O desenvolvimento dos semicondutores também impulsionou a computação pessoal nas décadas de 70 e 80, as telecomunicações, aparecendo a internet na década de 1990. Mesmo que governos, instituições públicas e privadas façam as suas partes, a velocidade das mudanças amplia a defasagem dos benefícios para a sociedade, haja vista que atualmente 4 bilhões de pessoas, ou seja, mais da metade da população mundial, não tem acesso à internet.

Podemos afirmar que a quarta revolução industrial bateu à nossa porta na virada do século e sua característica é digital, com uma internet móvel, sensores menores, mais velozes, mais poderosos, mais baratos e a inteligência artificial com o aprendizado na própria máquina. A “indústria 4.0”está presente nas feiras internacionais mostrando que as “fábricas inteligentes” já personalizam produtos e criam novos modelos operacionais numa fusão de tecnologias e interação com os mundos físicos, digitais e biológicos. Essa revolução vai mais além, invadindo áreas da nanotecnologia, da robótica, da genética, da internet das coisas, das redes elétricas inteligentes em cidades inteligentes.

As grandes questões que ficam é se teremos formas coerentes e positivas de descrever os desafios e as oportunidades que ocorrerão com as mudanças nos nossos sistemas econômicos, sociais e políticos e se teremos lideranças capazes de repensá-los para que a sociedade se aproprie dos benefícios dessa quarta revolução sem criar um fosso ainda maior na desigualdade hoje existente.

 

A reinvenção da política

Geoberto Espírito Santo

Engº, Prof. aposentado do CTEC – UFAL e membro da Associação Alagoana de Imprensa

O Brasil que eu quero é o prometido nas campanhas políticas e nuncaentregue.Vivemos num mundo de tecnologia, robótica e inteligência artificial e a sociedade passa por uma profunda transformação econômica, tecnológica e social, mas a política não acompanhou esses movimentos. Temos um vazio de poder e de consenso perigosos para o futuro,originado por um minimalismo municipal e regional promotor de um sistema de trocas e favores entre a União, Estados, municípios e empreiteiras neles interligadas para a compra e venda de poder. A eleição, como parte da democracia, serve maispara proteger corruptos, pois um mandato poderá postergar infinitamente umjulgamento na Justiça.

Por indignação e desesperança, entre 60% e 75% dos cidadãos não acreditam que os políticos ainda sejam seus legítimos representantes.Pesquisas internacionais mostram que apenas 7% das pessoas no Brasil ainda acreditam nos partidos, as instituições menos confiáveis. Sua qualidade é inversamente proporcional a quantidade. São 35 registrados no Tribunal Superior Eleitoral e 27 deles atuam no Congresso, uma pulverização que dificulta a tomada de decisões, a adoção de reformas e fertiliza o terreno para a corrupção. A taxa de renovação dos dirigentes nacionais dos partidos foi de apenas 25% em uma década. Não formaram novas lideranças. São vistos atualmente como castelos medievais onde funcionam casas de negócios, nas quais inexistem proteções até para que um candidato que queira, possa desempenhar bem a sua candidatura e posterior mandato. Os partidos trabalham para seus interesses financeirose a política ganhou má fama, perdeu o seu sentido nobre e passou a ser entendida como lugar de malandros. São a única forma de tomar e conservar o poder numa democracia, mas não unificam mais doutrinas ou interesses sociais, levando para a falência do Estado Democrático de Direito.

Os marqueteiros, especialistas em ilusionismo, evitam tratar da ética de seus patrões e transformaram o processo eleitoral numa repetição enfadonha. Em 2013 e 2015 o povo foi para a rua, numa festa sem nenhuma conexão com o dia seguinte. A geração jovem não é guiada pela lealdade partidária, mas pela necessidade de apoiar candidatos que personifiquem suas próprias causas. Hoje, a maioria das pessoas gostam de se diferenciar por raças, religiões, gêneros, sexo, cor da pele, nacionalidades. Isso são apenas árvores, mas a política precisa olhar a floresta. A política, como meio de conexão entre os indivíduos e a sociedade, não criou mecanismos de participação e as pessoas não se interessaram em participar.O que consolida uma democracia, nem é o voto, nem é o governo, e sim uma sociedade educada e libertária. Dessa forma, pode vir quem vier.

A representatividade política é a matriz de todas as crises e sua reforma tem que vir de uma mobilização social não manipulada que deve anteceder a construção política, um novo olhar nas estruturas formais e institucionais do poder. Se queremos mudar alguma coisa, temos que ter atitude, conscientes que o novo não é o dono da verdade e que pode ser pior do que o velho.A educação de qualidade e a tecnologia cívica poderão nos levar a uma reinvenção da política, transformando eleitores em cidadãos. Gosto de mega tendências e um livro tempos atrás me mostrava como seria o fim da atual democracia representativa. Os parlamentares de no máximo cinco partidos, argumentavam, discutiam, debatiam um determinado tema no Congresso e era mercadodia e hora da votação e,em praça pública,os cidadãos votavam através de seus celulares, instalados em relógios de pulso. Como na Grécia antiga, berço da democracia, mas com alta tecnologia.

 

A espiral da morte

Geoberto Espírito Santo

Engº, Prof. aposentado da UFAL e membro da Associação Alagoana de Imprensa – AAI

Pela predominância das fontes hídricas, o Brasil é um dos países no mundo com maior oferta de energiarenovável em sua matriz. Essa hegemonia era de 98% nos anos 70, estando agora com 65% e tendendo a diminuir pelas crescentes restrições ambientais, mesmo sendo a água uma fonte renovável. Temos 260 GW hídricos inventariados eapenas 40%utilizado. Entretanto, 70% do restante encontra-se na Amazônia, região de múltiplos interesses que envolvem topografia, áreas alagadas, terras indígenas, sítios arqueológicos, biodiversidade, proteção da fauna e da flora e até interesses internacionais. Essa é uma questão que precisa ser enfocada com altivez e racionalidade para que esse potencial não seja totalmente desperdiçado.

Para atender a demanda em um país em desenvolvimento é preciso ampliar a oferta e a política energética está priorizando os investimentos em fontes renováveis, também em função do nosso grande potencial de país tropical com dimensões continentais. O incentivo direcionado começou com a energia eólica, que já participa com 8% da nossa geração e está praticamente consolidada. As regras para essa fonte estão em transição, no financiamento, nos subsídios e nos seus impactos tarifários, pois chegamos a contratar Energia de Reserva quando já havia sido contratada a “garantia física” do sistema.

Na mesma trajetória vem a energia solar, quer pela redução de custos nos sistemas fotovoltaicos, quer pelas mudanças regulatórias promovidas pela ANEEL, vão resultar numa grande transformação na atual centralização do setor elétrico. Com a geração descentralizada e a presença do “prosumidor”, ou seja, o consumidor que também produz, teremos diferentes tipos de fonte e fluxos de potência em várias direções. Os benefícios ambientais do uso do sol para gerar eletricidade são notórios para os objetivos de uma matriz renovável, mas alguns cuidados regulatórios, técnicos e econômicos precisam desde já serem trabalhados.

Com um investimento em torno de R$ 7.000/kW registramos em fevereiro 23.623 unidades instaladas, número 65% maior que o projetado, sendo que 99% delas são de fonte fotovoltaica, obviamente instaladas por serem competitivas com tarifas, encargos, subsídios e impostos. Entretanto esses “prosumidores” continuam dependentes da concessionária pela falta de total aderência entre a geração fotovoltaica e a curva de carga diária do consumo. Com a difusão dessa postura as distribuidoras perderão receita, mas continuarão com as mesmas responsabilidades e custos dessa disponibilidade.

Como esse custo está embutido em tarifas ligadas ao volume do mercado, haverá um desequilíbrio econômico-financeiro da concessão calculada por baixoem 1,1% ao ano até 2024, só atualizado nas revisões tarifárias de 4 em 4 anos, que é diferente dos reajustes feitos todos os anos. Tarifas mais altas estimulam uma maior adesão dos “prosumidores” e essa “espiral da morte” promove uma perversa transferência de custos para os “sem painel”, justamente aqueles que não dispõe de recursos para produzir sua própria energia. Cabe ao regulador a alocação consistente e sustentável desses custos, benefícios e riscos entre os diferentes agentes do setor.

Com o sucesso, vema proliferação de empresas nesse ramo tendendo a baixar cada vez mais os custos pela competição quando algumas ficarão inviabilizadas pelos limites da qualidade do serviço. Antes da decisão do investimento, convém consultar especialistas no assunto para dissecar projetos, cálculos e cláusulas contratuais.