PREITO ANTIGO

Sempre tive por ela um imenso carinho.

Com ela eu conversava absolutamente sozinho,

Apenas eu falava.

Ela ouvia e registrava tudo o que eu dizia

Palavra por palavra e ainda que heresia,

Somente me escutava.

As descidas e subidas do meu temperamento

Eu exorcizava nela, a qualquer momento,

Sem um pio de reclamação.

Fosse padre, e, sem dúvida, seria um confessor

Que absorvia tudo com profundo amor

E me dava a absolvição.

Por toda uma vida ela aguentou a minha extravasão.

A minha ânsia de criar, de ser uma exceção.

E resistiu sem muita dor.

Hoje. largada a um canto, simplesmente abandonada,

Minha máquina de escrever foi traída e ultrajada

Pelo meu computador.

* Poesia escrita em fevereiro de 1999

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