Geoberto Espírito Santo

“No Brasil, só se fala no Estado Democrático de Direito. Vamos ampliar essa forma de soberania para
Estado Democrático de Direito e Deveres?” (Geoberto Espírito Santo)
Fui criado em um ambiente que jamais poderia imaginar ver um apelo na televisão
para ter respeito com as mulheres. Na realidade, o respeito não deve ser só com elas,
mas tudo leva a crer que a sociedade em que vivo hoje não consegue entender o que isso
significa. Todo mundo “se acha” (como dizem os jovens) com todos os direitos, sem ter
como limite os seus deveres.
Semana passada observei e tive um dia sem respeito. Geralmente acordo às 5:30h
e depois de uns alongamentos em casa saio as 6:00h para caminhar no calçadão da praia
de Ponta Verde, direção Jatiúca. Nesse dia, o desrespeito começou quando veículos não
paravam para a travessia de pedestres pela faixa. Na espera, um casal de turistas se
juntava a mim para perguntar se “em Alagoas a faixa de pedestres não era respeitada”.
Minha resposta “sim” não poderia ser diferente e, como era um sábado argumentei que
“seriam motoristas que estavam naquela hora saindo da farra”. Antes de terminar a
travessia já havia “quebrado a cara”, pois uma motocicleta, ao invés de diminuir a
velocidade, passar o mais distante possível ou até mesmo parar, passou perto em alta
velocidade gritando “sai da frente vovô”.
Caminhando pela calçada com outros pedestres vem ao nosso encontro uma
pessoa de bicicleta, que passa no meio de nós, com a minha reclamação de que “o lugar
de andar de bicicleta era a outra pista” ao desviar-me para evitar o choque. O homem já
maduro me respondeu que “na pista de bicicleta tem uma poça d´água que pode molhar
os pneus da mesma”. Já um pouco distante, disse eu: “Não pode molhar os pneus da
bicicleta, mas pode atropelar os pedestres”. A pessoa parou e perguntou “quem é você”,
uma derivação moderna do “você sabe com quem está falando?” Respondi que era “um
cidadão brasileiro pedindo para ele respeitar os meus direitos e ele cumprir com os seus
deveres”. Sem resposta, com aquela postura “tô nem aí” continuou circulando no meio
dos pedestres. Em seguida, um cidadão me disse que aquele da bicicleta era um que, por
trabalhar em órgão público que pode pressionar o cidadão, já é conhecido, “se acha”.
Na volta para casa, numa calçada perto de onde moro, por distração tive que dar
um pulo para não sujar o tênis com cocô de cachorro. Antigamente, quem saia para
passear com os cachorros era a secretária do lar com a recomendação de levar um
plástico para recolher as fezes do mesmo. Mas agora vemos também as próprias
proprietárias do animal, algumas delas desconhecedoras dessa prática de respeito ao
cidadão, à limpeza urbana, deixando aquele cheiro de urina nos pés dos postes e
coqueiros, que nesse caso fica mesmo difícil de evitar.
Depois daquele banho confortante e do café da manhã, “a que manda em mim”
pediu para eu ir ao supermercado fazer umas compras. Ao tentar estacionar na vaga do
idoso, pois estou mais perto dos 80 do que dos 70, de pronto não pude porque haviam
deixado um carrinho de compra no meio do espaço, razão pela qual tive que descer e
colocar o mesmo numa posição de não atrapalhar ninguém. Ao estacionar, vi que na vaga
ao lado, para deficiente físico, estava parando um veículo e resolvi esperar para ver quem
era. Aí desce a motorista, única passageira do carrão, jovem senhora bem apessoada,
vestida com aquelas roupas de academia que a posicionam no topo da pirâmide dos
rendimentos, com um tampão branco em cada ouvido, olhando o celular.
Conclui as compras e entrei na fila dos idosos, tendo três pessoas à minha frente.
Vejo então uma jovem simpática, vestida bem à vontade, um pouco aflita porque
chegando sua vez no caixa aguardava o namorado que ainda estava escolhendo o que
comprar. Aí vem a função do caixa que não devia atender consumidor nessa situação,
certamente orientado por seu gerente pelo mito que “não podemos contrariar o cliente”.
Chega então o namorado com uma cestinha contendo Red Bull, Coca Cola Zero, água
mineral e salgadinhos para levar para a praia. Nos países desenvolvidos, quem estava
guardando lugar não é atendido e quem chegou agora vai para o final da fila. Fato
contínuo, vem um rapaz com duas latas de cerveja pedindo para passar na frente porque
a compra era pequena. A minha não permissão, dizendo que ele fosse para os caixas de
pequenas compras, teve a reprovação da senhora à minha frente, tendo inclusive ficado
com pena do “bichinho, tão poucas compras”, como ela argumentou.
Ao dirigir-me para o carro, vejo um veículo branco, alto, estacionado na faixa de
pedestres, certamente esperando que “a autoridade” voltasse com as compras feitas.
Mostrei o desrespeito a um “segurança” que fica numa porta, recebendo como resposta
que não é sua atribuição impedir aquele procedimento. Colocando as compras no carro,
vejo que na vaga de gestante começa a entrar um veículo e, ressabiado, fiz uma “cera”
para sair aguardando quem desceria do carro. Um rapaz musculoso, de boné, cheio de
tatuagens, único ocupante do veículo, desce falando ao celular com aquele “ar de quem
pode tudo” porque sou “o cara”. Se ele já pode estar, sou um ignorante da modernidade.
É claro que o erro está no berço, passando pela permissividade de não
reivindicarmos nossos direitos. Por que o tempo de espera de quem vai para a praia é
mais importante que o meu? “Guardar lugar” em fila de loteria, de supermercado, de
banco, isso só existe em nosso país. Esse registro foi de um dia, mas esses fatos
acontecem todos os dias. O povo é mal educado porque o discurso da valorização da
educação não aparece nos índices comparativos internos e externos e não quer dizer
apenas presença em sala de aula. Dos que não cumprem as leis, só os “inimigos” são
fiscalizados. Não se cumpre o que foi assumido em juramento numa formatura ou
quando se assume um cargo público.
Se todo poder emana do povo, como está no Parágrafo único do Art. 1º da nossa
Constituição, vamos dar poder ao povo. Que se implante uma lei em que o povo, até
mesmo no anonimato para evitar maiores conflitos, seja o fiscal dessas faltas de respeito
com a cidadania. Hoje, praticamente todo mundo utiliza celular, que pode fotografar
essas irregularidades e entregar no órgão público competente para aplicação da
respectiva multa. Esses recursos seriam endereçados, exclusivamente, sem desvios para
outras finalidades, para retirar essa população de rua que vive abandonada pela falta de
respeito do poder público com seus cidadãos.