DISCURSO DE UM JOVEM MÉDICO

ARTHUR DUARTE PINTO (em sua formatura)

Saudações à mesa, aos professores, aos pais, familiares e amigos… e colegas de turma.
Representá-los aqui é a maior honra da minha vida.
Há momentos que ficam gravados na memória para sempre: por mais que os anos passem,
não precisamos nem fechar os olhos para vivê-los novamente. Agora estamos vivendo um deles.
Daqui a cinco, dez, vinte anos iremos lembrar desse mesmo palco, do lugar onde nos sentamos, do
momento em que recebemos o diploma e, principalmente, da emoção ao redor de tudo isso.
Aliás, se tem uma coisa que aprendemos no curso, é que as emoções tornam tudo muito mais
fácil de lembrar – e não me refiro apenas a quando mudamos o gabarito de uma questão no último
segundo e erramos. Me refiro antes aos momentos especiais, desses que não sairão das nossas
memórias. Ninguém esquece de onde estava quando recebeu a notícia da aprovação no vestibular, da
primeira prática de anatomia, da primeira prova prática de anatomia, as lâminas de histologia cheias
de detalhes, o primeiro atendimento em uma consulta, e os OSCEs – para os familiares e amigos que
não sabem o que é um OSCE, é basicamente uma prova prática em que atendemos casos clínicos, e,
segundo a ciência, uma das poucas ocasiões na vida em que o cérebro pára totalmente de funcionar.
São lembranças de momentos que por vezes foram difíceis, mas que ficaram mais leves graças às
companhias uns dos outros.
Seis anos é muito tempo, mas não precisamos mais do que poucas semanas para fazer amigos.
De grupos formados ali, no calor do momento, para trabalhos de BCMed ou ISEC, a amizades
profundas, por vezes até entre pessoas tão diferentes. Temos em nossa turma gente de todo tipo: quem
veio de outros estados, quem entrou no curso emendando do colégio, quem entrou mais velho, quem
fez anos de cursinho, quem veio de outra faculdade, quem já tinha concluído outra faculdade (de
Saúde, de Humanas e de Exatas!), mães (antes e durante o curso!), quem conciliou os estudos com o
trabalho… Pessoas diferentes, mas cuja mistura resultou nisso que eu vejo com tanto orgulho agora:
amigos que podem contar uns com os outros pelo resto da vida.
E vejam como hoje é tão especial!: talvez seja o último dia em que todos estejamos juntos.
Tudo bem: amanhã tem o baile, mas aí cada um estará em seu lugar, e alguns nem vão lembrar
direito… então acho que podemos combinar que é hoje. Já pararam para pensar que depois de amanhã
tudo será diferente, cada um em seu caminho? E lembram que a gente viveu algo parecido, lá em
2020, quando estivemos todos juntos em uma aula pela última vez e nem sabíamos? Pois é, hoje
sabemos. Sabemos também como é difícil estar longe de quem nos faz bem, e como é importante ter
com quem contar. Mesmo com a distância física e a falta de contato direto, o que realmente importa
não vai mudar. Então peço licença para corrigir o que disse: depois de amanhã tudo vai seguir igual,
apenas perderemos um vínculo formal. Cultivem sempre os amigos que fizeram no curso: se hoje
fechamos um ciclo, amanhã se abrirão outros, e a caminhada é muito mais fácil quando estamos em
boa companhia.
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Aliás, que caminhada longa! Cursar Medicina tem o estranho efeito de fazer parecer que faz
cinco anos que começamos o internato, e que aquelas provas polêmicas de Embriologia aconteceram
há dez. Gosto de comparar a formação médica com a construção paciente de uma casa: primeiro,
fazemos a base, às custas de suor e trabalho repetitivo, e vamos colocando tijolo por tijolo. No
começo, parece que não vai tomar forma, os dias e meses passam, e ainda assim custamos a
reconhecer o progresso. Mas o trabalho continua, e em algum momento vemos que aquelas estruturas
já têm uma forma que lembra uma casa.
Como em qualquer empreitada, sempre surgem dificuldades. Assim como a chuva atrapalha
uma obra, durante nossa formação inúmeras intempéries apareceram. Por exemplo, tenho certeza que,
desde o início, com a aprovação para uma faculdade particular, não foi fácil lidar com a idéia de pagar
seis anos de faculdade, ou de buscar um financiamento, a depender das nossas condições. Muitos
dizem por aí, em tom jocoso, que só quem é rico cursa uma faculdade particular de Medicina. No
fundo, eles estão certos! Somos ricos, muito ricos, pois não há riqueza maior do que essa: famílias
maravilhosas que se sacrificaram durante 72 meses para vivermos esse sonho.
Mas não pensem que é porque a faculdade acabou que a partir de agora será fácil. Como disse
nossa querida professora Ivonilda quando conversei com ela esta segunda-feira, o caminho, essa
construção contínua de nossa formação, sempre será difícil, sempre terá obstáculos, mas nós temos a
garra e todo o necessário para vencer.
Estarmos aqui hoje é a prova disso: vencemos! Cada um possui a sua própria casa,
pacientemente edificada. E todas essas “casas” são diferentes – porque somos diferentes! E peço uma
coisa: que não se comparem. A história, a vivência e as experiências de cada um são como a noite de
hoje: únicas. Sou testemunha de como foi difícil para todos chegarem aqui. Nossas “casas” ao final
do curso são heterogêneas, mas confio que todas elas possuem uma boa fundação. Não tenho dúvidas
que ao longo dos próximos anos, com o mesmo esforço diário que testemunhei, com a graça e
permissão de Deus, vocês contemplarão as obras das próprias vidas com orgulho e até com saudade
dos bons e velhos dias da faculdade.
Hoje vivemos um dia com o qual sonhamos e, seres humanos que somos, já estamos com
outros objetivos em mente. Plantões, postinhos de saúde, residências, pós-graduações, magistério…
são variados os caminhos que todos percorrerão a partir da próxima semana. Contudo, nosso sucesso
não poderá ser medido em carrões, apartamentos, se seremos aprovados na residência ou onde
faremos a residência; não será medido em seguidores em redes sociais ou em prestígio acadêmico.
Na verdade, são as pessoas e como nos relacionamos com elas que determinarão nosso êxito. Cito o
colega americano Samuel Lyon, que disse, também em um discurso de formatura, que as quatro
medidas do verdadeiro sucesso são nossas relações com quatro grupos de pessoas.
Primeiro: com seus pacientes. Você será o médico que eles querem rever? Será a médica de
cuja consulta ele saiu se sentindo melhor, e a quem ele vai querer indicar os próprios entes queridos,
para que você cuide deles?
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Segundo: seus colegas de trabalho. E peço que olhem uns para os outros, pois agora vocês são
isso. Em seus dias mais pesados, você será rude com o colega de plantão? Irá preencher mal algum
documento em retaliação a algo que te ofendeu? Ou será aquele que é gentil desde que chega,
saudando o porteiro pelo nome? Você será o doutor com quem todos evitam conviver, ou será aquele
em cujo dia fixo todo mundo quer trabalhar?
Terceiro, seus supervisores. Você será a médica que estará preparada, se antecipará ao que
precisa ser feito, considerará os afazeres pendentes e que terá um plano para cumpri-los? Os seus
chefes lutarão por você, para que você não saia do serviço?
Quarto, e a medida mais importante do sucesso: sua família, entes queridos e amigos. Pois,
por mais que hoje seja difícil contemplar, um dia nossa carreira médica vai acabar. Quando isso
acontecer, você terá para onde ir? Sua família e seus amigos terão orgulho enquanto vêem você
pendurar o jaleco pela última vez? Estamos iniciando uma carreira estressante e árdua, e por isso
convido todos a priorizarem suas pessoas mais amadas com o mesmo cuidado e dedicação que terão
em seus trabalhos.
Então, quando você se sentir frustrado, pare e pense no que realmente significa o sucesso.
Revisando (como se fosse uma aula): suas relações com seus pacientes, seus colegas, seus
supervisores e suas famílias e amigos. É isso que indicará seu êxito profissional.
Aliás, todos esses grupos até hoje se doaram não por si, mas por vocês. A partir de amanhã, é
hora de retribuir sacrifícios. De nossas famílias, eu talvez nem conseguiria conter o choro caso
discorresse muito sobre tudo o que nossos pais, avós, irmãos, esposos, tios e primos fizeram por nós,
e hoje muitos destes infelizmente só podem nos abraçar espiritualmente. Sacrifício também dos
nossos professores, que se prepararam para aulas, colocavam-se à disposição para discussões e se
adaptaram ao mundo virtual do ensino que aconteceu durante a pandemia. Sacrifício da coordenação,
cuja capacidade de resolver problemas vai além do que eu posso descrever. E sacrifício dos pacientes
que atendemos ao longo do curso: sim, eles se doaram a nós – afinal, não precisavam gastar três horas
e meia numa consulta com alunos do 4º período para sair com um pedido de ultrassom e uma receita
renovada de losartana.
Agora, nós que vamos nos sacrificar pelos outros e honrar todos esses que investiram em nós.
Tivemos seis anos para estudar o saber técnico, e sei que vocês saem daqui bem formados, e agora
olho para quem, em alguns anos, vai saber tudo de cirurgia, clínica, ginecologia, pediatria,
dermatologia, cardiologia… Mas só saber o que está em livros é insuficiente; a medicina não é uma
teoria, é uma arte. O processo de cura vai além da conduta teoricamente perfeita, pois precisa do
envolvimento emocional do paciente. Se você se dedicar a tratar não uma doença, mas um paciente
(uma pessoa!), se você buscar ativamente entendê-lo como um ser humano além dos sinais, sintomas,
síndromes e diagnósticos, o processo de tratamento será mais bem vivido por todos, mesmo que o
desfecho não seja o melhor.
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Para ilustrar essa idéia – e antes de terminar o discurso (já passei do tempo) –, gostaria de
compartilhar uma história que certa vez li e me marcou muito. É um conto da tradição rabínica que
diz o seguinte:
Certo dia, um estrangeiro visita um rabino muito sábio e lhe pergunta:
— Mestre, o que é melhor, a bondade ou a inteligência?
O rabino responde:
—Claro que a inteligência, meu filho, pois ela é o centro da vida.
Há um momento de silêncio. O rabino parece pensar. E antes que o estrangeiro agradeça e
vá embora, o rabino completa:
— Mas, se você só tem a inteligência, sem a bondade, é como se você tivesse a chave do
quarto que está no centro da sua casa, mas tivesse perdido a chave da porta da entrada.
Meus colegas, meus amigos, que tenhamos e nunca esqueçamos onde estão essas duas chaves!
Conhecendo cada um de vocês, sei que já possuem a bondade que nos faz humanos, e que buscam
sempre a inteligência que nos sustenta. Sei que as “casas” que vocês construíram ao longo do curso
são fortes e cheias de valor, e agora se mostram ao mundo. Somos médicos! Vão, brilhem, saibam a
técnica e busquem melhorar nela, saibam ser humanos e ser vocês mesmos. Quando se sentirem
frustrados, lembrem-se de como medir o verdadeiro sucesso. Agora partimos rumo a novos caminhos
e novas construções. Que não só tenhamos sonhos, mas que eles sejam vividos – exatamente como
no dia de hoje.
Foi uma honra indescritível viver e aprender com vocês. Para a turma VIII A de Medicina,
obrigado e parabéns.
Artur Duarte Pinto
Representante e orador da turma VIII A de Medicina do Centro Universitário CESMAC

Um comentário sobre “DISCURSO DE UM JOVEM MÉDICO

  1. Excelente e positiva a palavra do Orador descrevendo para todos o que foi o aprendizado nas aulas a relação com os colegas e professores
    Parabens e uma Feliz Aplicação da sua Função de Médico.

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