O meu piano

Minha primeira professora me batia os dedos

Com uma varinha idiota, por enganos ledos,

Achando que com isto eu aprendia.

Insistia em me fazer exercitar a rapidez de um Hannon

Mas, na verdade, eu queria tocar como um Valdir Calmon

E despejar no piano toda a minha ouvidoria.

E de tanto fazer para ela as mais irritantes caretas,

Minha mãe resolveu dispensá-la por todas essas mutretas

Que propositadamente eu fazia.

E aí, tornei-me um pianista livre, dono de mim e do meu piano

Usando o meu ouvido sensivelmente, como era meu plano

Dele transbordando a minha fantasia.

E os dedos corriam céleres, sem fiscais, pelas teclas de marfim

Buscando mostrar a todo o mundo o que era melhor pra mim.

Encontrando a música, elaborando sons.

Até porque, nem por sombra eu pretendia ser um grande pianista.

Na verdade eu desejava curtir a minha alma de artista,

O piano e eu, afinados, nos mesmos tons.

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